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Guerra cambial mantém tendência de valorização do real

Financial Times
Joe Leahy
Em São Paulo

As armas deveriam ter silenciado na semana passada, no que o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, já chamou de “guerra cambial” global.

O fim de junho marcou a conclusão da política monetária ultrafrouxa do alívio quantitativo dos Estados Unidos – que Mantega acusou de causar uma enxurrada de liquidez nos mercados globais e inflar o valor da moeda brasileira, o real.

Infelizmente, para o ministro, os investidores de todo o mundo não deram ouvidos. Nesta semana, eles retomaram a batalha com entusiasmo, valorizando o real ao seu valor mais alto em 12 anos –R$ 1,55 frente ao dólar, poucos dias após o fim do alívio quantitativo.

A principal causa do aumento foi o maior apetite dos investidores por risco, após o acordo da dívida da Grécia. O Brasil também anunciou seu maior superávit comercial mensal deste ano em junho.

Sejam quais forem as razões a curto prazo, a tendência de valorização da moeda deixou o Brasil preocupado com o prejuízo causado pelo real forte à competitividade de seus produtos manufaturados.

Apesar de privado do bode expiatório do alívio quantitativo, as taxas de juros ocidentais permanecem próximas de zero. Logo, o governo deve procurar por soluções a longo prazo. Eles envolvem decisões políticas difíceis e desagradáveis em coisas como reforma da previdência social e outras áreas, como regulamentação do mercado.

Por que o Brasil é um destino atraente para os investidores? Pergunte às donas de casa japonesas. Elas estão injetando US$ 4 bilhões por mês no Brasil, em grande parte por meio de fundos mútuos, colocando pressão adicional para valorização do real.

O motivo para o entusiasmo delas e de outros investidores se deve em parte ao sucesso econômico do Brasil e, em parte, às distorções que deixaram a maior economia da América Latina com as taxas de juros reais mais elevadas.

Poucas outras economias estão crescendo de modo tão forte quanto o Brasil, cujo produto interno bruto cresceu 7,5% no ano passado e está a caminho de expandir outros 4% neste ano. O crescimento se deu em meio à alta dos preços dos commodities exportados pelo Brasil, particularmente o minério de ferro, açúcar e café, assim como o aumento do consumo doméstico.

Mas o boom está sendo acompanhado por inflação, que ultrapassou o limite superior da meta de inflação do banco central nos últimos meses, de 6,5%, forçando os autores de políticas a aumentarem as taxas de juros quatro vezes neste ano, para 12,25%.

Para os investidores estrangeiros, a troca é óbvia – no Brasil, há crescimento econômico, valorização da moeda e as taxas de juros elevadas de qualquer grande economia, tudo junto. Nos Estados Unidos, Europa e Japão, o crescimento é mínimo e as taxas de juros estão próximas de zero.

Dilma Rousseff, a presidente do Brasil, tomou posse em janeiro com a promessa de reduzir as taxas de juros. Mas isso é mais fácil de dizer do que fazer. O orçamento do governo brasileiro está estimado em aproximadamente 40% do PIB – mais próximo em tamanho do de países desenvolvidos do que de seus rivais de mercado emergentes, como China e Índia, mas sem os padrões de serviços de uma economia avançada.

Os gastos públicos são em grande parte fixados por lei e por muitos anos têm crescido a taxas maiores do que o PIB. Grande parte deles são gastos em caras aposentadorias e salários para funcionários públicos. Um projeto de lei que estabeleceria um teto para as aposentadorias de novos funcionários públicos está parado no Congresso há quatro anos.

O resultado é que não sobra fundos suficientes para investimento. Segundo um estudo do professor Márcio Garcia, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o Brasil deve investir pelo menos 23% do PIB para sustentar taxas de crescimento de 5%, mas o superávit doméstico está abaixo de 16% do PIB.

O Brasil precisa de capital externo para financiar a diferença de investimento, mas o afluxo de fundos estrangeiros também teve o efeito indesejado de valorizar o real, o que mina a indústria brasileira.

Rousseff reagiu ao dilema no início do ano, reduzindo o orçamento proposto para o ano em R$ 50 bilhões – aumentando assim o superávit público. Mas os cortes podem ser politicamente difíceis de ser mantidos, com investimentos mais altos necessários antes da Copa do Mundo de futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos dois anos depois, assim como em meio aos pedidos dos aliados da coalizão por mais gastos.

A menos que a demanda por commodities despenque ou Rousseff possa promover reformas fiscais improváveis, o real deverá valorizar ainda mais. Mantega está preparado: como ele diz, a guerra cambial ainda não acabou.