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Piauí atrai mineradoras de Eike Batista, Suzano e grandes redes com isenções de ICMS por até 10 anos

  • Texto publicado em 24 de Janeiro de 2011 - 13h52
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    Desempregado há mais de seis meses em seu estado e depois de trabalhar em São Paulo, o servente de pedreiro Cristiano Alves Roque, de 37 anos, deixou a cidade onde vive, Jaboatão de Guararapes, na região metropolitana de Recife (PE), para conseguir emprego em Teresina, capital do Piauí, na construção de uma loja do supermercado Atacadão, do grupo Carrefour, em uma área de 18.818 metros quadrados, onde ganha R$ 1,2 mil mensais e acompanhado de 80 operários pernambucanos, paraibanos e maranhenses que chegaram no estado em busca de empregos.

    “Estava há mais de seis meses sem conseguir trabalho em Recife e não queria voltar para São Paulo porque lá também não tem mais muitos empregos. Tenho que sustentar meus dois filhos que estão em Jaboatão do Guararapes e aceitei o convite da construtora para trabalhar no Piauí. Aqui realmente tem muitos empregos e o salário é bom porque não se gasta muito porque a construtora oferece alimentação e hospedagem”, afirmou Cristiano Alves Roque, que só reclama do calor e do sol quente e forte. Diz que no Piauí quando a temperatura chega a 40 graus, 42 graus Celsius, mas a sensação térmica atinge 50 graus.

    Nos canteiros de obras de Teresina e de algumas cidades do interior do Piauí são muitos os operários de construção civil de outros Estado. Em dezembro, os habitantes da cidade foram surpreendidos quando 80 operários trabalhando na construção do Centro de Convenções de Teresina, do governo do estado, promoveram incêndio de material do canteiro de obras por atraso no pagamento de seus salários. Os teresinenses descobriram surpresos que aquele tipo inédito de protesto com uso do fogo, não praticado no Piauí, foi a maneira dos operários paulistas que trabalhavam na obra usou para receber seus salários e enviar o dinheiro para o sustento de suas famílias que ficaram em São Paulo.

    O reverso da moeda, do envio de mão de obra para o Sul e o Sudeste, está ocorrendo no Piauí com a chegada de grandes empresas para instalar lojas e indústrias nos últimos oito meses.

    O prefeito de Teresina,Elmano Férrer (PTB), disse que a cidade está atraindo, de uma só vez, duas lojas da Walmart, que estão em construção, uma loja do Atacadão, do Carrefour, e o supermercado Extra já inaugurou uma loja, fábricas de botões e alimentos vindas de São Paulo e do Centro-Oeste por causa do aumento do poder aquisitivo da população e da posição estratégica e locacional de Teresina, que fica na divisa com o Maranhão, formando uma região, a Meio Norte, que não tem muita ligação com a capital maranhense, São Luis, e por ser porta de entrada da Amazônia.

    “Teresina está distante de 500 a mil quilômetros de dez capitais do Nordeste e do Norte. Além disso, nas minhas conversas com o pessoal do Walmart, Extra, Pão de Açúcar e Carrefour, eu perguntei por que eles estavam vindo para cá e responderam que fizeram um pesquisa prospectiva e perceberam que o consumo está crescendo no Piauí muito. Por isso, essas grandes redes estão abrindo novas lojas”, falou Elmano Férrer.

    Ele diz que as lojas do Walmart e Carrefour estão oferecendo 1.200 empregos diretos e a o Extra já contratou 300 empregados, somando investimentos de R$ 520 milhões.

    Para ter o Carrefour em Teresina, Elmano Férrer cedeu área de 1,8 hectares de terras para o grupo completar com o terreno que comprou para construir em uma área de 18.188 metros quadrados. Férrer disse que foi feito uma permuta com a Prefeitura entregando o terreno avaliado em R$ 1,8 milhão e o Carrefour instalando bombas para evitar a entrada de águas dos rio Poti, que provoca enchentes com frequência na região do empreendimento no valor de R$ 2,5 milhões.

    O secretário de Desenvolvimento Econômico de Teresina, Alexandre Magalhães, diz que as empresas que vão ao Piauí recebem incentivos tanto do governo do estado da Prefeitura de Teresina. Do município, as empresas terrenos porque nós estamos com dois polos industriais e isenção de ISS (Imposto Sobre Serviços) por dez anos em caso da indústria hoteleira, de algumas taxas de impostos menores e o estado oferece isenção de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) de até 100% por dez anos, dependendo do caso, se a indústria for pioneira em seu ramo.

    “Por isso nós estamos atraindo fábricas de suplementos alimentares de Goiás, de cosméticos, fábrica de botões de São Paulo. A gente tem que dar este suporte. Nós vamos fazer uma nova lei para tirar as amarras que impedem a concessão de alguns incentivos”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico de Teresina, Alexandre Magalhães.

    O governador do Piauí Wilson Martins (PSB), diz que o Piauí está atraindo grandes empresas como a Suzano Papéis e Celulose, que está implantando uma fábrica no Estado e fazendo plantio de eucaliptos em municípios do entorno de Teresina; a mineradora MMX, do empresário Eike Batista, que faz pesquisas para exploração do ferro nos municípios de Avelino Lopes, São Raimundo Nonato e Sebastião Barros; a mineradora GME4, uma associação do empresário João Carlos Cavalcanti, com o banco Oportunity, do empresário Daniel Dantas, e com a Fomento Resources, a segunda maior mineradora da Índia do empresário Lakshmi Mittal, que está pesquisando reservas de ferro nos municípios piauienses de Paulistana e Jacobina, na divisa com Pernambuco; e o grupo Votorantim, do empresário Ermínio de Moraes.

    A Bunge Alimentos está montando uma segunda fábrica em Uruçuí, nos cerrados piauienses, para beneficiamento de grãos de soja e produção de alimentos

    Wilson Martins diz que o grupo Tomazini, de Goiás, vai instalar em Uruçuí, uma empresa de alimentos com capacidade de produção de corte de 80 mil frangos por hora.

    “Nós já adquirimos terras no sul do Piauí e para fazer os investimentos estamos realizando consultas sobre os municípios da região, as condições de infraestrutura, de incentivos fiscais e financeiros, além das exigências ambientais. Vamos ficar perto de um grande polo de produção de soja e milho nos Cerrados”, falou o presidente do grupo, Francisco Tomazini.

    Em Goiás, as empresas do grupo Tomazini exploram as atividades de produção agrícola de soja e milho, armazenagem de grãos, produção de ovos e pintos, criação de aves, diretamente e através de parceiros conveniados, industrialização de carne de frango e derivados e a industrialização de farelo e óleo bruto de soja.

    Francisco Tomazini falou os investimentos são em torno de R$ 300 milhões. “Isso significa a geração de mais de 2 mil empregos diretos”, disse o empresário.

    A Vale tem uma usina de teste da qualidade do níquel que está explorando em mina no sudoeste do Piauí. A empresa já está há seis anos no estado e atualmente desenvolve pesquisas sobre qual tecnologia deve usar para a exploração do níquel.

    Wilson Martins diz que nos últimos oito anos as estradas do Piauí passaram a cobrir todo o estado e a construção da ferrovia Transnordestina, que vai ligar os cerrados piauienses aos portos de Pecém, em Fortaleza (CE), e de Suape, em Recife (PE) , e tem muitas terras disponíveis para agricultura e de mineração.

    “O Piauí tem menos de 10% de suas terras abertas e terras relativamente baratas. Isso é um atrativo muito grande, principalmente aliado a um potencial mineral muito grande, que, no Nordeste só perde para a Bahia, e da infraestrutura. O fato do PIB (Produto Interno Bruto) estar crescido em torno de 8,8%, em 2008, acima da média nacional, também atrai empresas porque sabem que aquele estado que tinham como o pais pobre do Brasil está crescendo e que a população paga seus empréstimos e suas dívidas. Dos R$ 260 milhões emprestados pelo Banco do Nordeste para microempresários e agricultura familiar, a inadimplência ficou em apenas em 3%. Quem não quer vir investir em um estado como esse?”, falou Wilson Martins.

    Wilson Martins diz que a Suzano Papel e Celulose, que está investindo R$ 4 bilhões no Piauí em uma indústria na região do entorno da capital, Teresina, vai aumentar o PIB do Piauí nos próximos 15 anos em 15%.

    A Suzano está investindo em torno de R$ 4 bilhões em fábrica, pesquisas e plantações de eucalipto.

    Até ter classe C e D, mais do que as A e B virou motivo de atração das empresas.

    “O nosso grupo foi atraído para o Piauí, em especial para Teresina, porque fez um estudo que apontou ser os polos industrial e comercial muito prósperos e porque está ocorrendo um desenvolvimento econômico muito grande na região. A nossa diretoria enxergou um potencial muito grande no Piauí, principalmente com classes C e D fortes e nosso alvo nas lojas do Atacadão, que pratica o atacarejo (loja com preços de atacados para o consumidor final)”, expressa o analista de marketing do Atacadão, do grupo Carrefour, Paulo Rogério Lima.

    O diretor de fiscalização do Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM), Reinaldo Batista, disse que no ano passado foram feitas 600 solicitadas de pesquisas de minerais no Piauí e a mineradora GME4 concluiu em pesquisa parcial que uma das jazidas encontradas no município de Paulistana tem capacidade de exploração de 300 mil toneladas.

    “Tem mineradora de brasileiro com israelense explorando e exportando diamantes de minas do Piauí, que foi descoberto pelas mineradoras”, falou Reinaldo Batista.

    A Bunge Alimentos está montando uma segunda fábrica em Uruçuí, nos cerrados piauienses, para beneficiamento de grãos de soja e produção de alimentos. A primeira fábrica era de óleo de soja, mas a segunda fábrica é de industrialização de outros produtos alimentícios.

    Essa correria de empresas está trazendo de volta ao Piauí trabalhadores que foram procurar empregos em São Paulo. O servente de pedreiro Antônio de Sousa Lima, de 30 anos, afirma que estava trabalhando das 7h às 15h como cortador de cana de açúcar

    em Orlândia (SP) desde 1999 quando percebeu que a indústria da construção civil no Piauí estava vivendo dias que nunca tinha experimentado.

    Ele conta que desde que voltou ao Piauí não tem enfrentado o desemprego. Trabalhou em uma indústria de pré-moldados e na construção de condomínio de apartamentos antes de começar há oito dias a trabalhar na construção de uma loja da rede Walmart em Teresina.

    “Eu fui terminando um trabalho e entrando em outro. Nem solicitei seguro desemprego e não quero mais voltar para São Paulo. Deus me livre e guarde de voltar a trabalhar em São Paulo no corte de cana. Cana agora só litro para beber”, falou Antônio de Sousa Lima se referindo à cachaça da cana de açúcar.

    No ano passado, o Piauí bateu o recorde com empregos formais (com carteiras assinadas). Foram 19.734 empregos novos empregos formais, segundo o Ministério do Trabalho e do Emprego, mas agora com a chegada das empresas diariamente uma fila de uma quadra e meia cerca o Sine (Serviço Nacional de Empregos), em Teresina, que cadastra os candidatos para as vagas de trabalho.

    Paula de Carvalho, que trabalha no Cadastro do Sine, afirma são inscritos todos os dias 90 pessoas, mas voltam para casa pelo menos 130.

    A persistência do desemprego está no apagão profissional. São pessoas desqualificadas profissionalmente para as vagas que são ofertadas pelas empresas.

    Desempregado depois que o pub em que trabalhava fechou as portas, Maykon William Silva, de 24 anos, diz que tentou trabalhar nas lojas dos supermercados que estão se instalando em Teresina e já fez quatros concursos para carteiro, agente de saúde e recenseador do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e foi reprovado, a que ter apenas o ensino médio.

    “Essas vagas são disputadas por pessoas com curso superior ou cursando universidade e eles terminam aprovados e eu não tenho dinheiro para fazer os cursos de qualificação que as empresas exigem. Termino desempregado”, diz Maykon William Silva.

    O pedreiro João Santos Filho, de 30 anos, caiu de um prédio em que trabalhava na construção e seus ombros já não suportam mais pesos e a movimentação dos braços causa dores. Por isso, tem tentado, sem sucesso, trabalhar como vigilante ou prestador de serviços em repartições públicas.

    “Quando eu digo que estudei até o 5º ano do ensino fundamental, ninguém quer oferecer emprego. Como está cada dia trabalhar como operário da construção civil, eu estou lutando para me aposentar”, afirma João Filho.

    O IBGE, nos últimos levantamento de amostragem domiciliar, tem apontado o retorno de piauienses que moravam em estados da região sudeste e a manutenção do fluxo migratório para outros estados de profissionais qualificados, muitos deles aprovados em concursos públicos do governo federal.

    Graduado em Direito e Psicologia e com três pós-graduação e especializações na área jurídica e cursos no FBI e na Academia de Polícia em Washington (EUA), o teresinense Orlando Nunes, trabalha como delegado na Superintendência da Polícia Federal (PF) do Rio de Janeiro.

    Ele diz ter percebido que os piauienses que saem do estado com qualificação profissional se destacam e ocupam posições importantes.

    “Eu viajo o Brasil todo e encontro muitos piauienses em cargos importantes porque nos outros estados há uma necessidade muito grande de profissionais qualificados, de pessoas preparadas. Essa demanda hoje é muito maior do que a mão de obra desqualificada, que tem em todo o lugar do país, e nos locais mais desenvolvido há uma carência muito grande de mão de obra qualificadas e nós estamos preenchendo este espaço”, declara Orlando Nunes.

    Fonte: Meio Norte