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Onde a crise não acabou

Data: 23/11/2010
Fonte: Portal Exame

Os executivos dos setores que mais sofreram com a última crise econômica — como o petroquímico e o siderúrgico — até agora sentem seus efeitos no bolso

O mundo inteiro sentiu em algum grau o abalo que irradiou de Wall Street com a derrocada do banco Lehman Brothers em setembro de 2008. Entre os que sofreram os efeitos da turbulência de maneira palpável e imediata estão altos executivos das mais diversas companhias ao redor do planeta. Receitas em baixa. Lucros em queda. Bônus fulminados. Existe certo grau de crueldade num sistema que castiga um diretor de empresa que jamais saiu de seu escritório em São Paulo por causa dos pecados cometidos por um punhado de banqueiros de Wall Street. Mas é assim que as coisas funcionam. E é assim que elas devem funcionar se o sistema for realmente eficiente. A recompensa para quem é movido pela remuneração variável terá de vir, necessariamente, nos tempos de bonança. Para a maioria dos executivos, pelo menos no Brasil, o período de ganhos decadentes prolongou-se até o final de 2009, o que reduziu os bônus recebidos no início deste ano. E ninguém sentiu tanto a crise quanto os profissionais de setores como o petroquímico, o siderúrgico e o de construção civil, segundo o levantamento do Hay Group feito com 256 grandes companhias instaladas no país. Na siderúrgica gaúcha Gerdau, por exemplo, a remuneração total paga a seus executivos e conselheiros (grupo que soma 18 profissionais) caiu de 68,7 milhões de reais em 2008 para 63 milhões em 2009 — uma queda de 9%, segundo relatório publicado pela companhia. As perdas refletem os resultados financeiros registrados em 2009. O faturamento da Gerdau foi de 26,5 bilhões de reais no ano passado, 36% menos que em 2008. O lucro líquido também caiu — foi de 1 bilhão de reais, 79% inferior ao do ano anterior. "A redução da remuneração variável foi decorrente da queda das vendas após a crise econômica mundial", afirmou a Gerdau em comunicado enviado a EXAME.

Impacto da queda

Em grande parte, a razão do tombo nesses setores é a mesma: os maus resultados com a queda da demanda por commodities no mercado internacional. No outro extremo, setores mais dependentes do mercado interno, como produtos de consumo e a indústria automotiva, já voltaram a ganhar. "A variação mostra que o modelo de remuneração cumpriu sua função — os executivos só são premiados quando os resultados vão bem", diz Olavo Chiaradia, diretor do Hay Group. Para companhias como a mineradora Vale, cujos incentivos de curto e longo prazo representam mais de 50% da composição da remuneração de seus principais executivos, o impacto foi enorme. Em 2008 — um ano espetacular para os negócios, quando a capacidade de produção atingiu 100% e os estoques zeraram —, Vale pagou 24 milhões de dólares em bônus a seus oito diretores estatutários — entre eles o presidente Roger Agnelli. Em média, cada um deles recebeu 3 milhões de dólares em remuneração variável. No final daquele mesmo ano, o Brasil sentiu as pontadas iniciais da crise e a Vale foi uma das primeiras a se precaver. Anunciou corte de 30 milhões de toneladas na produção de minério de ferro e deu férias coletivas a centenas de funcionários. Em 2009, as dificuldades continuaram. O lucro registrado no ano caiu pela metade, pressionado pela queda de 33% no preço do minério de ferro e pela valorização do real em relação ao dólar. Assim como o lucro, os bônus pagos à cúpula da Vale foram reduzidos 50%.

Nos Estados Unidos, onde a crise ainda é companheira assídua dos executivos, as mudanças nas políticas de remuneração variável foram profundas e dolorosas. A reação visceral contra os banqueiros de Wall Street, vistos como os grandes vilões da derrocada, forçou mudanças na cultura de pagamento de bônus e achatou suas tradicionais boladas multimilionárias — mesmo para os que voltaram ao lucro. O Goldman Sachs, um dos bancos menos afetados pela crise, registrou um lucro recorde de 5 bilhões de dólares no último trimestre de 2009. O anúncio do prêmio concedido a seu presidente, Lloyd Blankfein, surpreende pela modéstia, comparada aos padrões anteriores — 9 milhões de dólares em opções de ações que só poderão ser compradas daqui a cinco anos, uma fração, portanto, dos quase 70 milhões de dólares em dinheiro que ele levou em 2008. Algo semelhante ocorreria no Brasil caso a crise se prolongasse? "Se a turbulência persistisse por mais um ou dois anos, haveria a possibilidade de alguma reação mais radical", diz Paco Ramirez, sócio da ARC Consultoria de Recursos Humanos. A perspectiva é que a vida volte ao normal para os executivos brasileiros — mesmo para os que tiveram os bolsos mais afetados — a partir de 2011. É o que se vê, por exemplo, com os resultados da CSN, castigada pela queda da demanda do aço em 2009. Em relação ao mesmo período do ano anterior, seu lucro subiu 95,5% no primeiro semestre de 2010 — chegando a 1,3 bilhão de reais. A empresa prevê pagar a seus executivos bônus de 15 milhões de reais no início de 2011 — um aumento de 40% em relação ao pacote distribuído no início deste ano. Aí, sim, para esses executivos, o fantasma da crise terá ficado definitivamente para trás.