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Fuga anunciada

Das cerca de 150 empresas brasileiras que abriram recentemente algum tipo de operao no Paraguai, nenhuma pertence ao setor de bens de capital. Mas, para o presidente executivo da Abimaq, Jos Velloso (foto), essa situao no vai perdurar por muito tempo. Segundo o dirigente, algumas indstrias do segmento comearam a conversar com as autoridades paraguaias sondando a possibilidade de trilharem o mesmo caminho, passando tambm a atuar fisicamente naquele pas.


"No d para culp-las", diz o executivo. "As empresas brasileiras que montaram operaes no Paraguai esto reconhecidamente se dando bem. tudo muito mais barato l, mo de obra, impostos, insumos. Para algumas indstrias, seria a grande chance de recuperar a competitividade que perderam nos ltimos anos".


Antes visto como um mero exportador de soja e de produtos falsificados, como eletrnicos e bebidas - e economicamente bastante dependente do Brasil e da Argentina -, o Paraguai vem se destacando como um polo de atrao para as empresas desses dois pases, graas s polticas ultraliberais do presidente Horacio Cartes.


Pertencente ao Partido Colorado e eleito em 2013, Cartes abriu o Paraguai para os investimentos estrangeiros, principalmente nos setores de carnes e indstria de transformao. Conseguiu rapidamente transformar o pas numa espcie de novo paraso das "maquilas", como so conhecidas as empresas que operam em determinado pas pagando poucas taxas, usando mo de obra local e produzindo artigos que sero comercializados principalmente no pas original destas empresas.


O termo originou-se no Mxico, pas onde o fenmeno de empresas maquiladoras est amplamente difundido. Mas est presente tambm faz dcadas no Sudeste Asitico, em pases como Filipinas, Indonsia, Vietn, Tailndia e Malsia. Uma caracterstica em comum dessas regies abertas para as "maquilas" a intensa explorao da mo de obra barata e o baixo custo dos impostos e insumos.


De qualquer forma, o salto econmico do Paraguai proporcionado pelas "maquilas" foi impressionante. O pas cresceu entre 3% e 4% nos ltimos anos, enquanto as demais economias da Amrica Latina ficaram na mdia de 2%. Brasil e Argentina, as duas maiores potncias da Amrica do Sul, caram, por sua vez, em profunda recesso, com inquietantes recuos em suas economias. A inflao tambm est totalmente controlada no Paraguai, ao redor de 5% ao ano.


As vantagens oferecidas pelo Paraguai s maquiladoras so enormes. Todas so beneficiadas pela chamada "lei das maquiladoras" e por dispositivos complementares de incentivo a empreendimentos industriais estrangeiros, que as isentam de impostos na importao de matrias-primas e maquinrios e aplicam tributao de 1% quando a mercadoria exportada. Outros diferenciais incluem energia eltrica com preo 65% mais baixo, tributao de 10% incidente apenas sobre o lucro e custo de mo de obra 50% menor.


No ano passado, o setor de "maquilas" paraguaio cresceu 10% diante de 2015. Das empresas maquiladoras, 80% so brasileiras, 7% argentinas e o restante constitudo por firmas europeias e americanas. E a tendncia de um cenrio cada vez melhor. As exportaes das maquiladoras instaladas no Paraguai, por exemplo, cresceram 25% em janeiro deste ano, na comparao com o mesmo ms de 2016.


AUTOPEAS - Um indcio de que a revoada de empresas brasileiras para o Paraguai poder, de fato, logo incluir as indstrias de bens de capital est na j grande participao de um setor-irmo, o de autopeas, que em janeiro respondeu por 49%, praticamente a metade, das exportaes das maquiladoras paraguaias para o Brasil. Em 2012, o setor sequer existia no pas.


O crescimento das atividades das autopeas no pas vizinho corresponde ao definhamento do parque produtivo brasileiro, que registrou uma capacidade ociosa de 54,2% em novembro do ano passado. Trata-se do setor que mais vem sofrendo com a retrao do mercado automotivo do pas. Enfileiram-se entre as autopeas brasileiras hoje com operaes no Paraguai verdadeiras grifes como a fabricante de chicotes eltricos Yazaki (que puxou a fila, em 2013), a THN e a Fujikura.


Outros setores tambm no tm do que se queixar de sua imigrao. No ano passado, as peas de vesturio com contedo paraguaio representaram 2% das vendas no Brasil. A diferena de custos entre um txtil feito no Brasil e no Paraguai chega a impressionar -  na produo de um cala, acima de 30%. A Associao Brasileira da Indstria Txtil e de Confeco (Abit) estima que o gasto com mo de obra e energia tambm seja 39% inferior no Paraguai nesse segmento especfico.


Igualmente, na rea de brinquedos a implantao de unidades fabris no Paraguai mostra-se mais competitiva. A Estrela, por exemplo, acaba de inaugurar no pas vizinho uma fabrica que recebeu investimentos de US$ 2 milhes e comeou com 200 empregados, montando produtos com componentes importados da China. Tudo, para escapar do cmbio e dos juros desfavorveis presentes no Brasil, aproveitar salrios e tributao mais baixos e aumentar as exportaes. JBS, do setor de carnes, e Bracol e Fujiwara, de sapatos para trabalhadores industriais, foram outras grandes companhias a se instalarem no Paraguai.


A rapidez do xito de alguns empreendimentos chama a ateno. A Texcin, do Grupo Riachuelo, comeou a operar em agosto de 2015 com investimentos de US$ 5 milhes, 150 trabalhadores e produo de 65 mil peas por ms. Aps sucessivas expanses, vai investir outros US$ 5 milhes de dlares neste ano, aumentar o quadro para 1,5 mil empregados e vender 600 mil peas por ms.


A companhia transferiu parte do maquinrio da fbrica de Fortaleza (CE) e envia lotes e lotes de tecidos e moldes para a finalizao na subsidiria estrangeira. Assim, chegou a custos mais prximos at aos da concorrncia chinesa, com logstica comparvel de uma unidade em outro estado brasileiro. A Texcin acredita que deve se tornar a maior geradora de empregos no Paraguai nos prximos dois anos.


Jos Velloso observa, no entanto, que a transferncia de indstrias de mquinas e equipamentos brasileiras para o Paraguai no dever se dar de uma vez s, mas pouco a pouco, para cada uma delas - pelo menos nesse momento. "Elas estaro ainda na fase de pagar para ver", acredita. "Iro aos poucos, como no caso de ampliao do parque fabril, por exemplo, ou de abertura de uma filial. Mas no iro fechar a fbrica que mantm no Brasil e transferir toda a operao para l. Mas isso pode muito bem vir num segundo momento, se as perspectivas no Paraguai se mostrarem realmente promissoras".


E, para Velloso, pelo bom desempenho verificado em outras empresas que se instalaram no pas vizinho, no h porque isso no acontecer. "O que mina a competitividade das indstrias brasileiras o custo de produo, realmente muito alto em todos os componentes que se observar: mo de obra, impostos, infraestrutura, insumos e por a vai. No Paraguai, todos esses custos so muito mais baixos. Para uma indstria que vai para l, no tem como dar errado. Infelizmente para ns".  (Alberto Mawakdiye/foto/Divulgao
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24/03/2017 - IPESI INFORMA