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Ferro-gusa de níquel chinês torna-se uma ameaça ao mercado

O produto passou a ser uma forma de controle sobre os preços no mercado de níquel por fabricantes de aço da China. E vem causando preocupações às mineradoras de ferro-níquel, como Votorantim Metais, Vale e Anglo American, que já manifestaram estar atentas a esse concorrente.

A Vale, segunda maior produtora global de níquel, cita em relatório o crescimento no ferro-gusa de níquel entre os fatores de risco para o preço do metal. "O aumento da disponibilidade de fontes alternativas de níquel ou a substituição do níquel das aplicações de uso final podem afetar negativamente o negócio de níquel da companhia", diz a mineradora. A empresa coloca como concorrentes a sucata de níquel e o ferro-gusa de níquel.

A Anglo American admite que a oferta de ferro-gusa de níquel influencia o mercado, uma vez que é uma opção mais barata. No entanto, a companhia afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que "o produto é diferente, com menor teor de níquel e que não tem a mesma qualidade do ferroníquel e do níquel classe 1."

Apesar de ter sido criado há cinco décadas, o ferro-gusa de níquel passou a ser produzido em grande escala apenas a partir de 2005. Feito a partir de minério de baixo teor de níquel laterítico, misturado com carvão de coque e agregados minerais, o produto tem baixo teor de concentração de níquel em sua composição, geralmente entre 1,5% e 15%. Enquanto isso, as ligas de ferro-níquel mais usadas pela indústria têm teor de pelo menos 30%.

Com essa concentração de níquel, o ferro-gusa pode substituir as ligas de ferro-níquel na fabricação de aço inoxidável e em algumas ligas de aço. No entanto, não é usado para alguns fins específicos, como baterias, aplicações químicas e ligas para as indústrias nuclear, aeroespacial e de eletrônicos, por exemplo.

"A produção do ferro-gusa de níquel saiu de praticamente do zero em 2005 para 150 mil toneladas em 2010 e quase 300 mil toneladas no ano passado", informou Tito Martins, presidente da Votorantim Metais. Para este ano, o analista de níquel do Bank of America Merrill Lynch (BofA), Michael Widmer, estima 330 mil toneladas.

O salto dos últimos anos foi impulsionado pela alta do preço do níquel, que chegou a superar US$ 50 mil por tonelada na bolsa de metais de Londres (LME) em maio de 2007. Na ocasião, o custo do ferro-gusa de níquel estava em torno de US$ 17 mil por tonelada, o que tornava a substituição vantajosa.

Nos últimos anos, o preço do níquel caiu fortemente - hoje é negociado em torno de US$ 15 mil por tonelada -, mas a produção do ferro-gusa também ficou mais barata. Segundo Widmer, dependendo do forno, o custo hoje pode ficar em torno de US$ 10 mil por tonelada.

A redução dos custos, que foi possível tanto para produtores que utilizam altos-fornos como para os que usam fornos elétricos, é apontada por analistas do banco de investimentos RBC Capital Markets como um dos principais fatores que impulsionaram a arrancada do ferro-gusa nos últimos anos.

Atualmente, o ferro-gusa de níquel é produzido em grande escala apenas na China e consumido no próprio país. No entanto, logo será vendido pela Indonésia. A empresa Indoferro investiu US$ 300 milhões em uma unidade de ferro-gusa de níquel e começou a produzir suas primeiras toneladas em abril deste ano. Segundo Stephen Flowerdew, gerente na empresa, a produção será de 250 mil toneladas ao ano, com 10 mil toneladas de níquel contido, a princípio, com concentrações variadas, entre 2% e 4,5%.

Flowerdew disse ao Valor que a empresa vai vender ferro-gusa de níquel para clientes em Taiwan, Índia, Europa e África do Sul. "Estamos muito ansiosos para incluir a América do Sul e a América do Norte em nossa base", afirmou, enfatizando que o Brasil é um mercado onde a companhia pretende atuar.

Em relação às concorrentes chinesas, a Indoferro afirma ter a vantagem de possuir matéria-prima em abundância, principalmente agora que o governo indonésio está limitando as exportações de recursos minerais. Hoje, as empresas chinesas importam a maior parte do minério de níquel laterítico que utilizam - justamente da Indonésia e também das Filipinas.