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Importante é o que vai acontecer na China

O economista Jim O"Neill está otimista com as perspectivas para a economia brasileira, apesar do fraco desempenho registrado pelo Produto Interno Bruto (PIB) desde a segunda metade de 2011. Criador do conceito do Bric (o grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China), ele aposta que o país vai crescer 4% ou mais no ano que vem, embalado pelas mudanças na política monetária e na política fiscal e por uma taxa de câmbio menos valorizada. Presidente da Goldman Sachs Asset Management, ele elogia abordagem mais flexível que tem sido adotada pelo Banco Central brasileiro, não vendo aí um abandono do regime de metas de inflação.

"Eu não acredito que eles estejam menos interessados no regime de metas de inflação. É mais que eles perceberam que tinham um grande problema com uma moeda sobrevalorizada. Eles estavam certos ao mudar", diz O"Neill. Para ele, "o Brasil cresce em alguns anos abaixo da sua tendência, provavelmente hoje na casa de 4%, e acima disso em outros. Eu espero que crescimento se acelere com força em 2013 e 2014, chegando talvez até mesmo próximo de 5%". O"Neill lembra que em 2001, 2002 e 2003, o Brasil cresceu 1,3%, 2,7% e 1,1%, pela ordem, e então avançou a um ritmo bem mais significativo de 2004 a 2008, quando a média ficou em 4,8% ao ano.

Ele mostra reservas, contudo, em relação a atitudes mais intervencionistas adotadas pelo governo Dilma Rousseff. "Em algumas coisas, o Brasil tentou "dar uma de China", quer dizer, tentou usar o Estado para criar crescimento sustentável. Eu às vezes provoco as autoridades brasileiras dizendo que elas foram por esse caminho quando até mesmo a China concluiu que não pode mais "dar uma de China"".

O pai do Bric traça um quadro favorável para a economia chinesa. Ele diz que a desaceleração da China se deveu a um motivo bastante simples - as autoridades do país induziram deliberadamente uma diminuição da velocidade de expansão do PIB, para buscar um avanço mais sustentável e de melhor qualidade. Em vez dos dígitos que se tornaram comuns na década passada, a expectativa para 2013 é de um crescimento na casa de 8%, mas com sinais de que o consumo privado lidera a retomada - as exportações e o investimento devem ter um papel menor. Para O"Neill, é uma boa notícia. Sugere que a China está reequilibrando a sua economia. No entanto, isso traz consequências diferentes para os diversos tipos de commodities. O quadro é menos favorável para os produtos básicos pesados e para o petróleo, e mais positivo para os agrícolas.

A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por meio de uma troca de e-mails.

Valor: A economia chinesa vai crescer cerca de 8% em 2012, menos que os 9,2% de 2011 e muito abaixo dos mais de dois dígitos atingidos pelo país durante boa parte da década passada. Quais são os principais motivos para essa desaceleração?

Jim O"Neill : Há um motivo principal - e simples. A China está crescendo entre 7% e 8% porque as autoridades chinesas deliberadamente desaceleraram o ritmo de crescimento. Isso ocorreu devido à preocupação de que a velocidade atingida em 2010 e antes desse ano fosse insustentável, criando inflação e outros efeitos colaterais negativos, especialmente a crescente desigualdade de renda. O governo quer um crescimento melhor e mais sustentável, mesmo que a taxas mais baixas.

Valor: O senhor acredita numa recuperação sólida da economia chinesa em 2013?

O"Neill : Num cenário como esse, em que há um desejo de crescer de um modo mais sustentável e como melhor qualidade, acho que a China vai ter um crescimento na casa de 8% também em 2013, com mais sinais de que o consumo privado está liderando a recuperação, com um papel menor para as exportações e o investimento. Na verdade, todos os indicadores antecedentes de curto prazo que eu sigo há anos sugerem que a China está entrando em 2013 a um ritmo mais forte do que esse. Eu acompanho todo mês a tendência das vendas no varejo como um indicador mensal do consumo contra a produção industrial, e ele está em alta. Isso é muito encorajador, e sugere que a China está reequilibrando a sua economia.

Valor: A China pode liderar a recuperação global em 2013 ou ela não será capaz de compensar a estagnação europeia, a desaceleração japonesa e a incerteza em relação à economia americana?

O"Neill : O que ocorre na China é facilmente a coisa mais importante no mundo. Em 2011, a China criou o equivalente, em termos econômicos, a uma outra Grécia a cada 12,5 semanas, ou algo com uma outra Espanha num ano. Em 2012, a taxa de crescimento um pouco mais baixa significa que o impacto não será tão grande, mas será próximo. Para a década de 2011 a 2020, mesmo com a China crescendo entre 7% e 8% ao ano, a contribuição do país asiático para o crescimento global será o equivalente à soma da dos EUA e da Europa, colaborando para uma expansão global na casa de 4%.

"Acho que tanto a política monetária como a fiscal reagiram de modo sensato à desaceleração brasileira"

Valor: Como o crescimento chinês vai afetar os preços de commodities em 2013?

O"Neill : Essa questão está ficando mais difícil. Com a China tão focada em mais qualidade no crescimento e em indústrias que poluam menos o ambiente, eu estou bastante cauteloso em relação a muitas commodities pesadas e ao petróleo. Já produtos alimentícios e agrícolas podem continuar a ir bem.

Valor: O crescimento do Brasil em 2012 provavelmente vai ficar na casa de 1%, apesar da redução dos juros, da desvalorização do câmbio de uma série de desonerações tributárias para alguns setores. O que explica o desempenho fraco da economia brasileira em 2011 e 2012, um período em que o país teve um crescimento mais baixo do que vários outros países latino-americanos?

O"Neill : É necessário colocar o resultado desapontador de 2011 e 2012 no contexto do ciclo brasileiro. Em 2001, 2002 e 2003, o Brasil cresceu 1,3%, 2,7% e 1,1%, pela ordem, e então acelerou com força de 2004 até 2008. O meu ponto é que o Brasil cresce em alguns anos abaixo da sua tendência, provavelmente hoje na casa de 4%, e acima disso em outros. Eu espero que crescimento se acelere com força em 2013 e 2014, chegando talvez até mesmo próximo de 5%.

"Em 2011, a China criou o equivalente, em termos econômicos, a uma outra Grécia a cada 12,5 semanas"

Valor: O Brasil se beneficiou do "boom" chinês durante a década de 2000. Em que medida o crescimento mais fraco do país em 2011 e em 2012 pode ser explicado por uma expansão menos exuberante da China?

O"Neill : Acho que indiretamente a desaceleração da China pode ser importante, por dois motivos. Primeiro, por causa do declínio dos preços de commodities. Segundo, porque deixou o resto da economia brasileira exposta à sobrevalorização do câmbio. Graças a políticas [do governo], o real está ficando menos sobrevalorizado.

Valor: Qual a sua projeção para o crescimento da economia brasileira em 2013?

O"Neill : Pelo menos 4%, talvez mais.

Valor: A política macroeconômica brasileira tem sido bastante questionada. Muitos analistas dizem que o Banco Central não está de fato comprometido em trazer a inflação para a meta, o câmbio não é mais flutuante e a política fiscal não é sólida como deveria ser. Como o senhor analisa essa questão?

O"Neill : Acho que tanto a política monetária como a fiscal reagiram de modo sensato à desaceleração brasileira. No que se refere à política monetária, o BC brasileiro deixou de ser parecido com o BC da Nova Zelândia e ficou mais próximo do BC da Austrália, quer dizer, se tornou mais flexível. Eu não acredito que eles estejam menos interessados no regime de metas de inflação. É mais que eles perceberam que tinham um grande problema com uma moeda sobrevalorizada. Eles estavam certos ao mudar.

"O Brasil tentou "dar uma de China", quer dizer, tentou usar o Estado para criar crescimento sustentável"

Valor: Há uma onda de pessimismo em relação à economia brasileira entre muitos analistas. Alguns deles têm uma visão muito mais positiva sobre o México, por exemplo. O senhor, que sempre foi mais otimista sobre o Brasil do que a média dos analistas, continua confiante em relação ao país? Há tantos motivos para elogiar o México?

O"Neill : Há um ano, eu fui um dos primeiros a começar a falar de modo mais positivo do México, em parte porque o país é um grande vencedor desse cenário marcado pela "nova" China. À medida que os salários dos trabalhadores chineses aumentam, a China se torna cada vez menos atrativa como fonte barata de exportações de baixo valor agregado. Isso é bom para o México, que pode reconquistar indústrias perdidas. Mas eu não vejo isso como um jogo relativo entre México e Brasil. O Brasil vai crescer perto de 4% nesta década. Para o México, esta década será melhor do que a anterior.

Valor: O senhor acha que o Brasil pode crescer 4% ou mais em 2013 devido à combinação atual das políticas fiscal e monetária e também por causa do câmbio menos valorizado? Há algum outro fator que vai estimular o crescimento?

O"Neill : Acho que essas políticas e o "momentum" devem ser suficientes. As pessoas não devem esquecer que o ministro da Fazenda genuinamente esperava que o crescimento fosse mais rápido no terceiro trimestre. Então não é um grande problema.

Valor: Em 2013, as projeções apontam que o Banco Central brasileiro não vai conseguir trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5%, deixando de fazê-lo pelo quarto ano seguido. Isso é um motivo para preocupação?

O"Neill : Eu não estou certo de que eles vão errar o alvo novamente, mas se isso ocorrer, depende da magnitude [do desvio em relação aos 4,5%]. E, visto de uma perspectiva mais ampla, não é um grande motivo de preocupação.

Valor: Muitos analistas criticam o governo da presidente Dilma Rousseff pelas políticas vistas como muito intervencionistas - a Petrobras, por exemplo, tem problemas para investir em parte porque o governo não permite que ela aumente os preços da gasolina, mesmo com os preços internos defasados em relação aos externos. O senhor concorda com essa visão?

O"Neill : Eu tenho alguma simpatia por essa visão. Em algumas coisas, o Brasil tentou "dar uma de China", quer dizer, tentou usar o Estado para criar crescimento sustentável. Eu às vezes provoco as autoridades brasileiras dizendo que elas foram por esse caminho quando até mesmo a China concluiu que não pode mais "dar uma de China".

Valor: Entre os países do Bric, que país terá o melhor desempenho em 2013? E o pior?

O"Neill : A China deverá ser a melhor, com um crescimento de 8%, com a Índia ficando próxima, com uma expansão na casa de 7,5%. Haverá uma disputa difícil entre Brasil e Rússia, com os dois crescendo cerca de 4%. Daqui a um ano, as pessoas estarão bem mais tranquilas sobre o ritmo de crescimento dos países do Bric do que hoje.

Valor: Quais são as principais ameaças para o crescimento global em 2013? O risco de uma ruptura na zona do euro ou uma eventual concretização do abismo fiscal americano?

O"Neill : Eu não acho que o risco de uma ruptura da zona do euro seja uma grande ameaça para 2013. É algo tão analisado e, em alguma medida, quase descontado. Se há alguma coisa, é mais um risco para 2014, depois das eleições na Alemanha. O abismo fiscal nos EUA é claramente um risco, como ficou claro na sondagem de novembro do ISM [a pesquisa sobre o setor manufatureiro americano conduzida pelo Instituto de Gestão de Oferta (ISM, na sigla em inglês) que mostrou o número mais baixo desde julho de 2009, em parte pelo temor dos empresários quanto à concretização do abismo fiscal]. Mas o maior risco global, dada a sua importância, é se alguma coisa nova der errado na China. Acho que isso não é provável, mas é um risco.