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Profetas do apocalipse

Autor(es): Xico Graziano
O Estado de S. Paulo - 26/06/2012
 

 

Acabou a Rio+20. Afora as frustraes advindas da falta de ousadia, esquentar o tema do desenvolvimento sustentvel foi o grande mrito da conferncia. Jamais tantas notcias socioambientais se destacaram no mundo. Por outro lado, a profuso de discursos criou uma espcie de Torre de Babel ecolgica. Todos falam, mas poucos se entendem. Haver tempo para salvar o planeta?

Comea pela arrogncia humana a srie de controvrsias que permeia o recente debate ambiental. Querer "salvar o planeta" exibe uma soberba incomparvel na histria da humanidade. Tal ideia, absurda, radicaliza a viso antropocntrica, creditando ao ser humano uma prepotncia acima de qualquer outra atribuda a ele, dono do universo e dos planetas. Imagine.

Na Idade Mdia, o Iluminismo deu fora razo. O intelecto, alimentado pela cincia, livrou o homem do desgnio divino, subjugado pela natureza bruta. Seu destino comeou a ser moldado com ajuda da tecnologia, representando, ao sair das trevas medievais, passo fundamental da civilizao. Floresceu o humanismo.

Mas a evoluo tecnolgica combinada com a exploso populacional gerou, sculos depois, um crescimento econmico agressivo aos recursos naturais. O homem, que pensava tudo poder, comeou a sofrer as consequncias da destruio de seu prprio habitat. A crise ambiental lhe ofereceu plulas de humildade que, ingeridas com mnima viso holstica, fizeram bem humanidade. Surgiu o conceito do desenvolvimento sustentvel.

Na abertura da Conferncia da ONU no Rio de Janeiro, o vdeo Bem-vindo ao Antropoceno retomou, noutro nvel, esse debate filosfico. Vai esquentar a discusso. Quem prope substituir a atual era geolgica do Holoceno - que vige desde o ltimo perodo glacial, h 12 mil anos - pela nova denominao assume que as atividades humanas se sobrepem s foras csmicas. Representa a maior das ousadias da mente humana. E, talvez, o pior dos equvocos.

Tem sido terrvel perceber a queda na compreenso de que o perigo ecolgico ronda a civilizao humana, no o planeta Terra. At ento a dubiedade, elementar, permanecia quase que restrita s salas de aula, afetando principalmente crianas, estimuladas pelo idealismo dos mestres a defenderem o meio ambiente. Nestes dias, porm, pulularam campanhas e matrias jornalsticas dando dicas de como "salvar o planeta". Uma bobagem inigualvel.

Os problemas ecolgicos afetam, e comprometem, isso, sim, o futuro da humanidade. A presso sobre os recursos naturais, se continuar aumentando, trar reveses na qualidade da existncia humana. Em certas partes do mundo, populaes padecem com a falta de gua potvel, sofrem com a poluio da atmosfera, amargam com a desertificao. O planeta nem liga. Basta uma dose de insignificncia humana para perceber a diferena.

Esconde-se, aqui, um lamentvel engano. O ambientalismo comeou a tratar o gs carbnico (CO), conhecido na biologia e na agronomia como o "gs da vida", como um vilo planetrio, responsvel pelo efeito estufa da Terra. Ora, a absoro do CO atravs dos estmatos das plantas permite realizar a fotossntese, processo vital que transforma energia solar em energia qumica, base dos carboidratos e protenas vegetais. Libera, ademais, oxignio no ambiente.

Entrou na moda "neutralizar" as emisses de CO busca de um certificado de boa conduta ambiental. Noutro dia, um nibus circulava nas ruas da capital paulista entupindo a atmosfera com fumaa preta, embora ostentando logo acima do sujo escapamento um lindo dizer: "carbono neutro". Licena para poluir.

A teoria do aquecimento global anda crescentemente contestada pelos cientistas "cticos". Veremos qual o fim dessa polmica. Em qualquer hiptese, porm, inaceitvel considerar o gs carbnico no captulo da poluio. Esse absurdo conceitual embaralha a mente das pessoas e alivia a barra dos verdadeiros poluidores. H quem acredite, por exemplo, ser o arroto bovino mais danoso atmosfera que o escapamento dos automveis. Risvel.

O caldo das novas formulaes est criando uma charada indecifrvel. Sem entender direito dos assuntos, as pessoas tendem ao repeteco dos chaves, onde tudo se mistura, se confunde, se banaliza na vontade de, orgulhosamente, ajudar a "salvar o planeta".

Que ningum duvide: graves ameaas ecolgicas afetam a civilizao humana. O conflito entre a populao, que continua crescendo, e os finitos recursos planetrios tende ao colapso. O avano tecnolgico auxilia, constantemente, na superao dos obstculos. Mas, como diria o caboclo do interior, o buraco mais embaixo. Em algum momento dever haver radical modificao no modo de vida.

Por que algumas sociedades tomam decises desastrosas? A intrigante pergunta faz Jared Diamond nos captulos finais de Colapso, seu famoso livro. Na resposta, obviamente, se encontram variadas razes. Nem sempre foram capazes de diagnosticar corretamente seus problemas. Muitas vezes seus lderes foram imediatistas, no estadistas, que olham longe.

Jamais, porm, aconteceu de as sociedades pregressas apostarem no atraso para vencer seus desafios. O dilema civilizatrio atual somente se resolver na base do conhecimento aliado ao convencimento, uma mistura de liderana visionria com educao ambiental. A soluo passa longe do vandalismo demonstrado pelo MST ao destruir, no ltimo dia da Rio+20, o stand da Confederao Nacional da Agricultura e Pecuria (CNA). Atitude fascista.

Pior. Espanta perceber a atrao de certo ambientalismo - aquele messinico - por esse vis autoritrio. Urge distncia desses (falsos) profetas do apocalipse.

Autor(es): Xico Graziano
O Estado de S. Paulo - 26/06/2012